06 janeiro, 2013

A puta XI



Deixei bem claro que eu cumpria como ninguém meu papel, e o meu papel não era dar amor, era trepar, amor era coisa comprada, custava caro, era mercadoria importada e não conhecia quem vendesse por aquelas bandas. Abaixei suas calças e fiz uma chupeta bem feita. Ele espirrou o jato quente na minha garganta. Fiquei com aquele líquido pastoso um tempo na traquéia, ele demorou um pouco a descer, fiquei intrigada, nunca tinha sentido algo tão denso, que se nega a desmanchar. Confessou que era poeta <então entendi tudo> e por isso trazia a carne putrefata e o mau cheiro, esperava que eu não me importasse, ele já tinha usado todo tipo de perfume e nenhum era capaz de disfarçar a carniça. O cheiro também o incomodava e crescia com os anos, há alguns em nem sequer conseguia sentia nada, agora quase não consigo dormir com esse odor terrível, tenho insônias tenebrosas. Os poetas trocam de pele como trocam de roupas, o dia todo eu me decomponho, está vendo¿ Tem pele descolando por toda parte, poeta é uma espécie de leproso incurável. Não me importava, já tinha visto de tudo. Depois continuou como louco acariciando minha pele, apalpando meus peitos, lambendo minha buceta, enfiando o dedo nas minhas entranhas, seus dedos pareciam uma pinça feita de desespero, enfiava, chegava a suar a testa com o esforço, como se tivesse a intenção de arrancar o que eu trazia escondido por dentro, de lançar minhas trompas aos cachorros. Não tenha medo querida, estou empolgado porque você é a primeira mulher pura que como. Não pude resistir e soltei outra gargalhada, dessa vez ainda mais alta, esperei e escutei de volta seu eco, ele estava de sacanagem comigo, só podia ser. Uma mulher pura, eu¿ Você só pode estar de brincadeira¿ Você é poeta ou comediante¿ Bem, não sei se há grande diferença entre os dois... Vou te explicar o que chamo de pureza. Cansei de foder quem me fode a cara. Tenho levado porrada à toa. A vida inteira tenho comido apenas as mulheres de alma elevada. Mulheres que declamam Paul Celan, discutem sobre dialética e sabe o nome de todos os músculos que produzem o riso. E o que isso me trouxe¿ Nada, absolutamente nada. Percebi que a maioria das mulheres intelectuais não passam de um boi que acabou de ter as vísceras retiradas no matadouro. Todas bichos empalhados. Fazer amor com o ser amado traz à superfície os escorpiões que se escondem nos buracos. Não queria ter dormido com seres que eu amava, preferível a isso seria dormir aconchegado com meu pior inimigo, esperando uma faca me atravessar. Só quem te ama pode te levar ao inferno, pode te fazer andar por lá, pode te fazer encarar o diabo. Não posso chegar ao gozo com tantas amarguras percorrendo meu pau, minha memória, meu pau tem memória e eu tenho memória de elefante, sabe¿. Com você é diferente, seu corpo, seu sexo me é virgem, sua carne é macia, não traz nódulos de outros tempos, não tem ranhuras nem cicatrizes. Eu posso adormecer no seu colo e não cair em abismos, em precipícios. Eu posso oferecer meu pau a sua boca e saber que ele não será decepado, posso oferecer todos os meus membros e saber que nenhum será amputado. Enfio minha língua no meio de suas pernas e sei que o líquido que escorre não será ácido a ponto de me corroer. Sabe, houve um dia em que eu era esquecimento, mas aos poucos fui perdendo o interesse pelas coisas que me faziam humano, observava as guelras suspensas da noite, a pele morta dos répteis... disfarçava meu anseio e passava a mão pelo meu crânio e ela afundava devido a fissura provocada pela trepanação do tempo, apalpava meu ventre e sentia a cada dia que o tamanho do meu intestino diminuía consideravelmente e depois de alguns anos eu não era nada além de um peixe estripado bem na época da desova, um ser vazio, esquecido à margem lodosa do rio. Senti um pouco de raiva daquela falação toda, ela me incomodava, uma ejaculação cerebral inútil, além disso, me fazia lembrar do filho da puta daquele filósofo, não via muita diferença entre os poetas e os filósofos, os dois não mantinham o pau em pé quando o cérebro funcionava, os dois misturavam tesão com citações bibliográficas, tentavam impressionar com a exatidão frouxa das palavras. Nenhum dos dois entendia que as palavras eram mortas e a língua no sexo valia mais que um bando de léxico sem sentido.

3 comentários:

Fernando Rocha disse...

Este capítulo fez-me recordar da ambiguidade de "Lucíola", a mulher anjo/demônio, os olhos do poeta iluminam esta parte ainda escondida, ao menos para mim.
O pensamento da protagonista sobre poetas e filósofos, calham bem para os nossos tempos, há muito significante sem significado numa linguagem saussiriana.

J. Lins disse...

Perfeitíssimo... Belo, profundo, único...

cirandeira disse...

Não sei o que é pior. Se o preconceito do poeta machista contra a mulher esclarecida, ou o preconceito da puta em relação aos poetas, filósofos, às mulheres esclarecidas e até mesmo
quanto à sua condição de prostituta...